Larissa Nabuco
Oceanógrafa
Minha história com o mar nasceu na Bahia. Sou de Salvador, minha família de Ilhéus, e desde cedo convivi com a presença constante do oceano. Foi ele que despertou em mim a curiosidade ainda na infância, quando catava conchas, observava pequenas formas de vida e me fascinava nas visitas com meu pai aos navios da Marinha.
Na juventude, vivi intensamente a praia, entre o surfe, o mergulho e as horas de contemplação das ondas. Pensei em Medicina, mas a Oceanografi a falou mais alto. Troquei o jaleco pelo mar e nunca mais voltei atrás. Na graduação, embarquei duas vezes com a Marinha, em missões para Trindade e Abrolhos. Ali compreendi que a vida embarcada era mais do que aventura, era vocação.
Ao concluir o curso, segui adiante na formação e iniciei diretamente o doutorado em Oceanografi a Física. A pesquisa científi ca me abriu novas portas, aprofundou meu olhar sobre os processos do oceano e reforçou meu desejo de seguir carreira na Marinha.
Em 2022, recebi de Aleixo Belov o convite para integrar a expedição à Passagem Noroeste. Foram quase dez meses de mar, partindo de Salvador, cruzando Caribe, Canal do Panamá, Havaí, Alasca, norte do Canadá, Groenlândia, Açores e retornando ao Brasil. Além de me tornar a primeira oceanógrafa brasileira a realizar aquela rota, vivi um aprendizado profundo: no mar aprende-se a valorizar o essencial, a enfrentar os problemas com coragem e a entender que cada jornada nos transforma.
Ao voltar, preparei-me para o concurso da Marinha, mas uma apendicite inesperada no dia da prova mudou meu rumo. Logo depois, Belov me convidou para trabalhar na Fundação que leva seu nome. No início resisti, mas percebi que a gestão poderia ampliar meu alcance. Hoje sou diretora executiva da Fundação e diretora cultural da Sociedade Amigos da Marinha (SOAMAR) de Salvador. Tenho a satisfação de transformar minha
paixão pelo mar em projetos de cultura oceânica, educação ambiental, exposições científicas e ações sociais que aproximam a sociedade do que considero nosso maior patrimônio: o oceano.
Em 2025, realizei um sonho antigo e cheguei à Antártica. Estar naquele território extremo foi um encontro com tudo aquilo que me move desde criança. Voltei com a missão de compartilhar essa experiência com a sociedade, para que todos compreendam a importância desse continente e o trabalho extraordinário que o Brasil desenvolve ali.
Hoje sigo convicta de que minha vida é feita de travessias, e cada uma delas me trouxe até aqui. A Bahia moldou meu olhar e o mar me deu propósito. Meu compromisso é com a Amazônia Azul, nossa imensidão marítima, estratégica para a cultura, a ciência e a economia do Brasil. E é nela que continuo, apaixonada e determinada, sempre guiada por um mesmo lema: “On my way to the ocean”.