DEPOIMENTO

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Suboficial Mendes
Mergulhador

Eu tinha apenas 14 anos quando avistei, no horizonte, um navio da Marinha. Desde a infância, ouvia meu pai falar sobre a Força Naval, mas foi naquele dia que decidi me tornar marinheiro.

Quatro anos mais tarde, ingressei na Escola de Aprendizes Marinheiros e logo vivi a experiência que definiria meu futuro. Durante um exercício, o navio em que eu estava ficou à deriva e só voltou a operar graças ao trabalho dos mergulhadores, o que despertou em mim uma grande admiração e a vontade de seguir essa especialidade.

Mesmo após ser reprovado na primeira tentativa, persisti no sonho, contei com o apoio do meu pai e, em 1991, formei-me em primeiro lugar no curso, tornando-me o primeiro mergulhador da Marinha a alcançar média global superior a 9. Eu me recordo da conversa que tive após a reprovação: “Pai, o senhor colocou na cabeça que eu e meus irmãos serviríamos à Marinha, e hoje estamos aqui. Agora está na minha cabeça que eu quero ser mergulhador. Não importa se vai levar um, dois ou três anos”.

Ao longo da minha carreira, vivi momentos que marcaram a minha vida. Em Manaus, a bordo do antigo Navio de Transporte de Tropas Soares Dutra, um cabo se rompeu durante a descarga de material e um contêiner com medicamentos destinados às comunidades ribeirinhas afundou. Os mergulhadores foram imediatamente acionados, pois era preciso agir rápido para evitar a perda dos remédios. A operação foi concluída em apenas 45 minutos, garantindo que o material pudesse ser utilizado pela população. A memória mais viva que tenho daquele dia é a gratidão expressa pela comunidade local.

Foi uma coisa muito bacana. Mesmo de forma indireta, por meio do mergulho, conseguimos garantir que aquele material tão aguardado por uma população pouco assistida não se perdesse e chegasse ao seu destino.

Em outra missão, no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, encontrei um tubarão-tigre durante a troca de um marégrafo a mais de 20 metros de profundidade. Sabíamos dos riscos, mas decidimos fazer o mergulho e concluir a nossa missão. Estávamos ali para isso. Era um sonho realizado na Marinha. Tudo correu bem graças a Deus.

Para mim, o mergulho vai muito além de uma escolha na carreira, é um sentimento de liberdade. Por mais que o trabalho seja duro, frio e exigente, eu sinto uma conexão profunda com o oceano. É como se o mar fosse seu companheiro, oferecendo ferramentas para que você siga adiante. Com os anos, essa relação se tornou ainda mais intensa. A gente passa a respeitar a grandiosidade do mar, percebe a imensidão, a vida que pulsa em cada canto, desde o menor peixe até o maior tubarão. O mar ensina, ajuda a compreender melhor as coisas e desperta uma paixão que permanece pelo resto da vida.


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